Como criar uma palavra secreta familiar contra golpes de inteligência artificial
Golpes digitais estão ganhando uma camada extra de realismo com o uso de inteligência artificial. Áudios manipulados, clonagem de voz e vídeos falsos podem fazer uma ligação ou mensagem parecer ter vindo de um filho, pai, irmão ou outro familiar.
A Anatel alerta que deepfakes podem imitar vozes, rostos e comportamentos de pessoas conhecidas, sendo usados em tentativas de obter dados pessoais ou provocar prejuízos financeiros. Serviços e Informações do Brasil
Uma medida simples para aumentar a segurança da família é combinar previamente uma palavra secreta familiar, também chamada de palavra de segurança. Ela funciona como uma verificação adicional quando alguém aparece com uma história urgente e pede dinheiro, informações pessoais ou alguma ação incomum.
O que é uma palavra secreta familiar?
É uma palavra ou pequena frase conhecida somente por um grupo restrito de familiares.
Imagine receber uma ligação aparentemente feita por um filho dizendo que perdeu o celular, está usando outro número e precisa urgentemente de uma transferência. A voz parece correta e a história é convincente.
Em vez de confiar apenas na voz, a família pode perguntar pela palavra previamente combinada.
A estratégia é especialmente útil porque a Polícia Civil do Rio Grande do Sul recomenda estabelecer uma palavra de segurança ou pergunta combinada para confirmar identidades em situações de emergência relacionadas à clonagem de voz por IA. Administração Pública de Roraima
Ela não deve, porém, ser considerada uma proteção infalível. Se houver qualquer suspeita, a identidade precisa ser confirmada também por outro meio.
Como escolher uma boa palavra secreta
O código precisa ser fácil para os familiares lembrarem, mas difícil para outras pessoas descobrirem.
Evite informações que possam estar disponíveis publicamente, principalmente nas redes sociais. Nome de animal de estimação, aniversário, cidade onde a pessoa nasceu, apelido conhecido ou nome de um familiar podem ser descobertos com alguma pesquisa.
Uma alternativa é criar uma combinação sem relação evidente com informações públicas. Por exemplo, duas palavras aleatórias que façam sentido apenas dentro da família.
Também não é necessário transformar o código em uma senha extremamente complicada. Se ninguém conseguir lembrá-lo durante uma situação de pressão, ele perde parte da utilidade.
O mais importante é encontrar equilíbrio entre memorização e imprevisibilidade.
Todos precisam saber quando utilizar o código
Não basta escolher a palavra. A família deve estabelecer claramente as situações em que ela será solicitada.
Uma regra prática pode ser usar a palavra secreta sempre que houver uma solicitação inesperada envolvendo:
- transferência de dinheiro ou Pix;
- informações bancárias ou documentos;
- pedido para manter determinada situação em segredo;
- contato realizado a partir de um número desconhecido;
- suposta emergência envolvendo um familiar;
- mudança repentina nos planos acompanhada de pedido financeiro.
A urgência merece atenção especial. Materiais do CERT.br explicam que golpes de engenharia social exploram sentimentos e comportamentos humanos, incluindo medo, urgência e confiança em outras pessoas. CERT.BR
Portanto, frases como “preciso agora”, “não conte para ninguém” ou “não posso explicar, só faça a transferência” devem aumentar a cautela, mesmo quando a voz parecer familiar.
Como usar a palavra durante uma ligação suspeita
Suponha que alguém ligue dizendo ser um familiar e relate uma emergência.
Em vez de fornecer informações que possam ajudar o interlocutor, faça uma pergunta direta relacionada ao código combinado.
Se a pessoa não souber responder, responder incorretamente ou tentar mudar de assunto, interrompa o contato e faça uma verificação independente.
Há um detalhe importante: não revele a resposta durante a pergunta.
Também não transforme o processo em um interrogatório com várias informações pessoais. Quanto mais informações forem fornecidas ao interlocutor desconhecido, mais material ele poderá obter sobre a família.
A palavra secreta não substitui uma segunda confirmação
Mesmo que a resposta esteja correta, pedidos envolvendo dinheiro ou informações sensíveis merecem outra verificação.
O Banco Central orienta que, diante de pedidos de transferência feitos por conhecidos em aplicativos de mensagens, a pessoa telefone ou encontre o solicitante para confirmar se o pedido realmente partiu dele. O órgão também alerta para vídeos e áudios produzidos com inteligência artificial que simulam voz e imagem. Banco Central do Brasil
Por isso, uma estratégia familiar mais segura pode combinar duas etapas: verificar a palavra secreta e depois entrar em contato usando um número já conhecido.
Se alguém telefonar de um número desconhecido alegando ser seu filho, por exemplo, encerre a chamada e telefone para o número que você já possui salvo.
Não utilize simplesmente um telefone informado pelo próprio interlocutor suspeito.
A família precisa manter o código realmente secreto
Criar uma boa palavra e depois divulgá-la elimina sua principal vantagem.
Não publique o código em redes sociais e evite enviá-lo em grupos grandes de mensagens. Quanto menor for o número de pessoas que conhecem a informação, melhor.
Também vale orientar crianças, adolescentes e idosos sobre a finalidade do código. Eles precisam entender que a palavra não deve ser fornecida a terceiros que perguntem sobre ela.
Se houver suspeita de que alguém fora do grupo descobriu o código, escolha outro.
É preciso trocar a palavra periodicamente?
Não existe necessidade de trocar o código constantemente apenas por rotina. Mudanças excessivas podem fazer os familiares esquecerem qual versão está valendo.
A troca faz mais sentido quando houver motivo concreto para acreditar que a palavra deixou de ser secreta.
Isso pode acontecer, por exemplo, se alguém enviou o código para a pessoa errada, escreveu em um local exposto ou revelou a informação durante uma tentativa de golpe.
Nesse caso, todos os integrantes devem ser avisados de que o código anterior não é mais válido.
Voz conhecida não deve ser considerada prova suficiente
Esse é um dos principais motivos para estabelecer o procedimento antecipadamente.
A Polícia Civil de Santa Catarina alerta que criminosos podem usar inteligência artificial para clonar vozes e entrar em contato com familiares ou amigos, fazendo pedidos de dinheiro ou informações pessoais. Entre as medidas preventivas recomendadas está confirmar pedidos financeiros por outro meio de comunicação. Polícia Civil de Santa Catarina
Portanto, ouvir “a voz do seu filho” já não deve ser o único elemento usado para autenticar uma situação incomum.
O mesmo princípio vale para imagens e vídeos. A evolução das técnicas de manipulação digital torna importante observar o contexto do pedido e confirmar a identidade por meios independentes.
O que fazer diante de uma possível tentativa de golpe
Ao perceber algo suspeito, evite agir sob pressão. Não faça transferências, não forneça senhas, códigos de verificação ou informações bancárias e encerre o contato quando necessário.
Depois, procure diretamente o familiar supostamente envolvido usando um canal conhecido.
Se uma conta de rede social tiver sido clonada ou invadida e estiver sendo utilizada para pedir dinheiro, o Ministério da Justiça orienta avisar amigos e familiares, guardar evidências e registrar boletim de ocorrência. Quando houver pedidos de Pix, a recomendação inclui procurar imediatamente as instituições financeiras pelos canais oficiais. Serviços e Informações do Brasil
Caso uma transferência via Pix já tenha sido realizada em decorrência de golpe, o Banco Central orienta entrar em contato imediatamente com o banco e relatar a fraude. Banco Central do Brasil
Transforme a palavra secreta em um protocolo familiar
A maior vantagem dessa estratégia não está apenas na palavra escolhida. Está em criar um comportamento previamente combinado.
Quando toda a família sabe que pedidos extraordinários precisam ser confirmados, a pressão criada pelo golpista perde parte de sua eficácia.
O protocolo pode ser simples: surgiu uma emergência envolvendo dinheiro, dados pessoais ou uma situação muito fora do comum, ninguém toma uma decisão apenas com base em uma mensagem, ligação, áudio ou vídeo. Primeiro confirma a identidade, utiliza a palavra combinada e procura a pessoa por um canal conhecido.
Assim, mesmo que tecnologias de inteligência artificial tornem uma fraude extremamente convincente, a família possui uma informação e um procedimento que não dependem apenas da aparência ou da voz de quem está do outro lado.
Fontes consultadas
Banco Central do Brasil, orientações gerais para evitar golpes e procedimentos relacionados a fraudes via Pix. Banco Central do Brasil
Agência Nacional de Telecomunicações, campanha sobre deepfakes e fraudes digitais. Serviços e Informações do Brasil
Polícia Civil do Rio Grande do Sul, orientações sobre clonagem de voz por inteligência artificial. Administração Pública de Roraima
Polícia Civil de Santa Catarina, cartilha de prevenção a golpes e clonagem de voz. Polícia Civil de Santa Catarina
Ministério da Justiça e Segurança Pública, orientações para contas de redes sociais invadidas ou clonadas.
